Vomitando tudo!
Tente não engasgar.
Entro no ônibus, estou nervosa e ansiosa, sinto o cheiro forte de algum perfume, mais meia hora ali e sinto que vou passar mal. Preciso que o tempo passe rápido, preciso chegar logo, me sinto tão enjoada, acho que vou vomitar.
Estou no carro velho do meu pai, minha mãe está dirigindo, acabei de comer um pedaço de bolo de aniversário, minha cabeça dói e não consigo me concentrar em nada. Preciso chegar em casa logo, acho que vou vomitar com certeza.
Estou na faculdade, sentada conversando, lembro de olhar algo no meu notebook, abro ele e para minha surpresa a tela está quebrada. “PUTA QUE PARIU! PUTA QUE PARIU! PUTA MERDA! PUTA QUE PARIU!” eu repito sem parar. Estou fudida, me sinto desconfortável, quero morrer, sinto um enjoo, vou vomitar de verdade dessa vez.
Fico em casa no domingo, hidrato meu cabelo, faço uma vitamina de morango e sinto uma sensação de morte. Em alguns minutos estarei no banheiro vomitando todas as minhas entranhas.
Fico acordada até 5 horas da manhã, bato o dedão do meu pé na gaveta do criado, sinto vontade de chorar. Eu não choro, decido ir dormir.
Acordo tarde, tomo banho. Passo tempo fazendo nada, durmo de novo, acordo e tomo mais um banho.
Quero que o mundo acabe.
Em todos esses momentos sinto raiva.
Sinto raiva da minha família pelo jeito como me tratam. Sinto raiva dos meus amigos por confiarem tanto em mim. Sinto raiva de quem não me entende. Sinto raiva de mim mesma por não ser melhor do que eu poderia ser. Sinto raiva da minha casa. Sinto raiva da faculdade, sinto a raiva das pessoas. Sinto tanto e fico com raiva por sentir tanto, por ser tanto. Às vezes sinto raiva por ser de menos. Às vezes sinto raiva por ser demais. Sinto raiva quando fumo. Sinto raiva quando não fumo. Sinto raiva quando não como. Sinto raiva quando como. Sinto raiva ao não me exercitar. Sinto raiva ao me exercitar. Sinto raiva por me achar legal demais. Sinto raiva por as vezes me achar chata.
Mas sinto informar que a raiva não tem objetivo, ela só é mais fácil inicialmente. Mais fácil que chorar, desabafar ou explicar. E a raiva se torna um problema. A gente acaba fazendo dela o nosso “go to” sentimento.
E tenho vontade de vomitar para não engasgar e morrer. Sempre estou querendo vomitar a minha raiva, despejar tudo em algo ou alguém. Ela vem até minha garganta e me sinto quase sufocar, minha cabeça dói e os músculos das minhas costas se contraem de tal forma que é quase impossível se mexer, quero vomitar o que está entalado dentro de mim.
E aí?
E aí a gente grita e fala o que não deve.
E eu não gosto de gritar e nem de falar o que não se deve.
E aí a gente machuca as pessoas e pede desculpas.
E eu não gosto de machucar as pessoas e nem de ficar pedindo desculpas.
A raiva é só um sentimento secundário. Ela é cheia de tristeza, expectativa e decepção. E quando sinto tanta raiva parte de mim só quer vomitar, outra parte quer parar de existir. Dizer que chega. E dessa vez, chega de verdade.
Eu não quero sentir isso o tempo todo. Parece que não sei ter sentimentos proporcionais ao meu tamanho, aí tudo que passa é eventualmente transformado em raiva. E aí eu guardo tudo e um dia explodo e levo todo mundo, até quem não tem nada a ver.
E aí, eu erro. E sinto raiva de errar. E sinto raiva de sentir raiva.
Mas eu vou melhorar.
Vou ser mais que minha raiva.
Vou ter paz um dia e não vou precisar vomitar as minhas palavras, nem engasgar com elas.




lindo! mds lindo! te amo!