O Museu de Você
o ato de tentar apagar é, em si, um ato de memória
Me foi apresentada a ideia de voltar no tempo e me impedir de tomar certas ações, impedir a união dos meus pais ou, talvez, não te conhecer.
Se eu voltasse hoje, teria eu me impedido de começar tudo isso?
Será que devo voltar para me impedir de te ver pela primeira vez, sequer saber seu nome? Parece meio drástico, mas é que sinto uma dor no peito, sinto meu coração se apertando tentando não explodir ao simplesmente pensar sobre você ou, às vezes, só de te olhar a cerca de um metro de distância de mim.
Acontece que a viagem no tempo é linear. Não te conhecer seria consequência de te conhecer.
Eu me lembraria ainda do formato dos seus lábios, dos seus olhos tão escuros que não me deixavam ver suas pupilas, do formato do seu queixo, das pintinhas do seu rosto, dos seus cílios, das suas sobrancelhas finas, do seu piercing favorito, das suas bochecas, eu ainda me lembraria de todas as linhas do seu rosto. Me lembraria ainda da sensação das suas mãos no meu cabelo.
Me pergunto sobre como você lembra de mim no presente. Será que devo criar uma nova versão de você, em uma outra linha do tempo, para que você não me conheça? Então, deveria eu tomar essa decisão por nós? Seria justo?
Será que somente eu devo me lembrar do sofrimento que causei? Mesmo que minhas ações fossem de injustiça? Será que somente eu devo me lembrar do que sofri?
Acho que somente o arrependimento poderia fazer alguém querer mudar algo sobre sua própria história, e eu desconheço esse sentimento. Não mudaria nada. E as minhas desculpas continuariam sendo verdadeiras. A única métrica do tempo que eu mudaria é o futuro.
Porque a verdade é que queria gritar pro mundo, queria poder conversar com você sobre me sentir enlouquecendo. Queria saber o que pensa sobre tudo isso. Será que tem arrependimentos? Você voltaria?
Queria te revelar, sobre como acho que deveriam criar um museu de você, sobre como as pessoas deveriam fazer fila para conhecer a ideia de você, como acho que você é uma obra de arte viva.
Que ideia pensar que talvez eu devesse ter ficado só te admirando. Talvez a ideia fosse fugir. Fugir do ambiente criado, das relações que pairam sobre nós. Eu não teria que engolir todas as coisas bonitas que pensei sobre você.
Pensei que queria te ouvir cantar.
Pensei em te desenhar um milhão de vezes.
Pensei em escrever sobre você.
Pensei que todas as músicas eram sobre você.
Ainda penso.
Voltar seria uma viagem em vão.
Pois a sua existência dentro de mim será eterna e me lembrarei com carinho de todas as suas qualidades e imperfeições. Vou guardar todos os origamis que me deu de presente e com mais 998 desses irei realizar um desejo. Irei guardar na minha mente todas as obras que já fez, irei guardar em minha mente a simples imagem do seu sorriso e a forma como mexe no cabelo.
Tentar te apagar de mim seria ainda te preservar no museu da minha mente, seria ter uma nova vida em função do seu existir.
Eu quero falar de quem você foi quando existiu pra mim.




vc sempre me deixando sem palavras!!
sei que você já sabe telepaticamente tudo o que penso sobre essa OBRA PRIMA!
mas deixo registrado aqui minha incandescência após ler. incrível.